Em uma conversa descontraída em seu estúdio (o Hell No), um dos fundadores, o baterista do Dead Fish, Nô, fala sobre o prêmio VMB de banda revelação que ganharam, sobre a moda independente, o “novo” Dead Fish, a pirataria, internet, além de lembra que em 2008 entram em estúdio para gravar seu novo cd e promover o Festival do Terceiro Mundo: “Festival de Hard Core onde as bandas não pagam para tocar. Para poder começar a combater esses caras (produtores). Porque não dá para ficar olhando os caras estragarem tudo que a gente conquista e constrói a 16 anos, porque tem meia dúzia de moleque que quer fazer show”. 
Bruno: O que significa ser uma banda independente?
Nô : Independente foi encontrar uma alternativa para realizar as coisas que a gente queria e que sabíamos que ninguém ia dar apoio. Ninguém dá apoio para banda de punk, de hard core. Existem as leis de incentivo e de apoio para esse tipo de coisa, mas preferimos pegar e fazer por conta própria a esperar esse tipo de apoio. Então acho que ser independente aqui no Brasil é ter uma vontade de ver as coisas acontecerem, e não esperar ajuda nem apoio de ninguém. É a vontade de ver as coisas andarem, de tentar melhorar alguma coisa, de tentar fazer algo que seja maior que ficar dentro do seu quarto tocando.
Bruno: Vocês do Dead Fish eram conhecidos na cena alternativa, mas desconhecidos do grande público até tempos atrás. O contrato da gravadora Deck Disc mudou esse panorama?
Nô: Nós sempre fomos conhecidos, desde que lançamos disco e começamos a fazer turnê, a gente era conhecido pelo meio das gravadoras, das rádios, da MTV, só que era uma banda que corria totalmente por fora. Porque a gente não ficava batendo na porta de gravadora, de rádio e televisão, perguntando se eles queriam tocar ou conhecer a gente. A diferença foi, quando a gente entrou pra Deck Disc, o Dead Fish começou a veicular nesses meios que a gente não veiculava. Nós fomos apresentados para um público que acompanhava estritamente aquele meio de comunicação e não se aprofundava muito em conhecer as coisas independentes, punk´s, hardcore, e outros estilos que não veiculam na rádio nem nada. Então isso foi bom, muita gente já conhecia e uma porção de garotada passou a conhecer, devido nós aparecermos em alguns veículos aqui e ali, ganhar uns prêmios aqui e ali. Mas, a leigo modo, tem gente que fala que Dead Fish é uma banda nova, foi lançada e é revelação, mas não é revelação. Ganhou prêmio de revelação e a gente disse, pô, maior vergonha, banda revelação...
Bruno: Falando nisso, como vocês vêem esse prêmio do VMB 2004 de Banda Revelação, depois de 10 anos nas costas? Reconhecimento de anos de trabalho ou revelação para o grande público?
Nô: Revelação para uma galera que fica muito sentada, esperando as coisas virem até eles. Acho que fomos revelados para esse público. É aquele público que consome aquilo que está sendo passado. Esse prêmio de revelação, a gente encarou desta forma, pô, a gente está a 10 anos aí, e já vendeu muito mais cd do que muita gente que está aí, que se diz famoso e grande. Foi legal, acho que acrescentou muito mais do que depreciou. Tem gente que acha que foi sacanagem, mas não vou ser radical a esse ponto, não tem porque. Eu acho que tem o lado de revelação para a galerinha que não conhecia, passou a conhecer e depois que conheceu foi atrás de outras coisas, foi saber que a gente tinha outros discos, que existem outras banda parecidas que estão aí há muito tempo e que eles não conhecem porque não tocam na rádio ou na tv.
Bruno: Qual a relação de vocês, como banda independente, com a pirataria e a internet?
Nô: A pirataria é um negócio chato. Você vê o seu trabalho sendo vendido e isso não está sendo revertido para você, é ruim. Eu acho que nesse ponto, o artista sai prejudicado. É chato ver seu cd xerocado em uma banquinha de camelô, mas você não tem muito que fazer. Já internet eu acho que é um veículo que não tem muito a ver com o lance da pirataria, se você usar internet para divulgar seu trabalho, botar músicas lá para conhecer. Eu mesmo acho a internet uma parada fantástica, eu tenho muita coisa que eu quero ouvir, e não tenho como adquirir, eu baixo e ouço. Se você perguntar se sou contra o download, ou quem baixa as músicas do Dead Fish eu falo que não, o cara que quiser pode ir e procurar e baixar todas nossas músicas, todos os vídeos, tudo que ele quiser. Desde que ele faça isso para ele ouvir. Não que ele vá que ele vá vender. Acho que são duas coisas bem distintas. Eu sou do pensamento que quem gosta mesmo, baixa para ouvir, mas se ele é fã mesmo, ele gosta, ele vai lá e compra, porque ele quer ter o material original.

Bruno: Como está a cena independente hoje em dia?
Nô: Cara, a cena independente de um tempo para cá, virou moda. O meio independente quando a gente começou a lançar nossas coisas independentes, e não tinha ninguém para lançar, era uma luta, era uma batalha para você conseguir. Atualmente, ser independente não quer dizer que você tem portas fechadas, muito pelo contrário, você tem muitas portas abertas, porque tem selos se encarregando apenas da distribuição. A gente, quando era independente e tinha nossa gravadora, que era a Terceiro Mundo Produções Fonográficas (a gente tem ainda a gravadora, os cd´s que foram licenciado para a Deck Disc), a gente só conseguiu fazer escoar esses cd´s porque nós éramos uma banda que toca o tempo todo, gostava de fazer shows e levava seus cd´s nas costas, e aonde tocava, montava uma banquinha e vendia mais barato para quem estivesse assistindo o show. Tirando isso, ser independente era sinônimo de você não conseguir seguir direito suas coisas, hoje em dia não, tem internet, tem MySpace, tem Purevolume, tem um monte de lugares para divulgar.
Bruno: E os lugares da cena?
Nô: Hoje a cena se resume a milhões de bandas querendo fazer show. A molecada monta banda porque vão aos shows de determinado grupo e olham a banda e falam,
é isso que quero fazer, quero dar show. E às vezes eles nem são apaixonados por música. Aí o que acontece é que um monte de produtor pilantra se aproveita. Eles chamam o Dead Fish para tocar, chamam duas ou três bandas, pede uma grana preta para cada banda, paga o Dead Fish, ganha um monte de dinheiro, trata mal as bandas de abertura. Existem cotas para bandas de 500 a 5 mil reais para poder tocar com um NxZero ou um Dead Fish. Isso é ridículo, é um lixo e está acabando com a cena. E o que está acabando com a cena são os moleques burros das bandas que querem pagar para tocar. Tomara que isto acabe, Dead Fish está fora disso. Não vai mais fazer isso. Na verdade, ano que vem o Dead Fish pretende fazer vários festivais do Terceiro Mundo, o nosso selo. E quero que o slogan seja: Festival do Terceiro Mundo, festival de Harde Core onde as bandas não pagam para tocar. Para poder começar a combater esses caras. Porque não dá para ficar olhando eles estragarem tudo que a gente conquista e constrói há 16 anos, porque tem meia dúzia de moleque que querem fazer show.
Bruno: No último cd, Um Homem Só, dá para perceber um cuidado a mais com timbres da guitarra, a qualidade do áudio está bem melhor comparado aos outros. Em cds mais antigos, vocês primavam pela letra, muitas músicas de protesto. Como é ouvir Recompensa (Faixa Bônus do cd Um Homem Só) e ouvir MST (Música do cd 1º cd, intitulado Sirva-se)?
Nô: Antigamente a gente tinha uma verba e uma estrutura muito limitada. Era uma fase que a gente se preocupava mais com a letra e com a mensagem da música. O cd Zero e Um ainda é um meio termo entre essa fase e cd Homem Só. O Homem Só eu acho que a gente se perdeu, por conta dos nossos dois guitarristas quererem procurar demais a sonoridade e faltou a veia raçuda do Hard Core, do Punk Rock, da coisa direta. Esse disco, Um Homem Só, tem coisas que eu ouço e falo, isso não é Dead Fish. Para o próximo disco, vamos retomar a veia dos primeiros discos. Já temos oito músicas que já estão mais ou menos prontas.
Bruno: E quando finalizaram Um Homem Só, a opinião de todos era que haviam se perdido? Vocês poderiam ter voltado e re-gravado?
Nô: Não, acho que foi o processo de composição que foi errado, no meu ponto de vista. Eu acho que uma banda tem que se juntar, entrar num estúdio, alguém dá uma idéia, e aquela idéia tem que virar uma música. Se aquilo não vira uma música naturalmente, você fica mexendo e remexendo muito naquilo, perdeu a essência, a inocência, o sentimento que você ta colocando ali, que é o sentimento que tem que ir impresso. Acho que quando você pensa demais para fazer a música, quando você pensa demais para fazer a melodia, para fazer a letra, já começa errado, tem que vir espontâneo. Então, Um Homem Só, a gente ficou pensando no disco muito tempo, deu-se a idéia de ser um disco conceitual, que todas as letras iriam ser interligadas, o disco iria abranger o conceito só, que era o conceito de que ninguém vai fazer nada por você, você é que vai ter de se virar, Um homem só irá te salvar, e esse homem é você.
Bruno: O que vocês vêm surgir de banda nova no meio?
Nô: A cada semana deve surgir uma porção. Elas vêm até a gente e falam que somos influências. Só que às vezes eu olho e faço um julgamento que pode ser errado, mas na maioria das vezes, é uma banda de meninos, primeira coisa que você vê, é que eles estão naquela pelo visual, visual acima de tudo, eles já estão caracterizados, depois eles pensam em montar a banda, e o próximo passo é fazer show, e eles pensam que fazer show é legal, os caras entram de graça nas baladas, bebem, tem camarim, as menininhas dão mole. Vamos montar banda. O Dead Fish sair para fazer show foi uma conseqüência da gente gostar de música. Hoje o processo é inverso, eles querem ter a banda porque eles querem fazer o show, quer estar inserido ali, porque todo mundo tem uma banda, todo mundo anda naquele visual. E surgem muitas bandas e elas são todas iguais entre si, e do jeito que elas surgem, elas somem, pois eles não tem amor ao negócio.
Bruno: Mas tem uma minoria, bandas novas que estão aí fazendo sucesso?
Nô: Cara, existe agora, com essa última enxurrada de bandas veio Fresno, veio NxZero, veio um monte de coisa, desse estilo Emo, Screamo, tem uma porção de bandas.
Bruno: Finalizando, qual o projeto do Dead Fish? É o mesmo desde o começo? Nô: Quando a gente montou a banda nós éramos um bando de adolescente que eram sustentados pelos pais, e a banda era puro lazer, diversão. Depois de um tempo, a coisa tomou uma forma, a gente começou a lançar cd, vendê-lo, fazer turnê. Todo mundo passou a encarar de outra forma. Se conseguíssemos fazer isso para sobreviver, ficaríamos muito felizes. Então a gente começou a ir atrás desse objetivo, transformar a banda em um meio de sobrevivência. Depois que a gente assinou com a Deck, que a coisa se profissionalizou, aí a gente veio para São Paulo, para viver só da banda. O Projeto continua o mesmo para mim, para o Rodrigo e para o Alyand, que são os três mais antigos. É tentar viver do negócio até morrer. Se você perguntasse para o Rodrigo no início da banda, qual era o objetivo, ele responderia que o objetivo era mudar o mundo, hoje em dia se você perguntar para ele, o objetivo é tentar sobreviver. É um negócio triste de ouvir. A gente é uma galera que resiste ainda em falar as verdades na cara. Se não tiver essas poucas pessoas, o outro lado vence. O objetivo que era de mudar o mundo, passou a não mudar o mundo, não fazer uma revolução de massa, passou a tentar a mudar o indivíduo, fazer uma revolução interna, fazer o cara se questionar, porque daí ele questionando, ele passa a questionar as coisas em volta dele.
Bruno Souza